Em jeito de celebração dos 60 anos de existência que a Casa das Artes Bissaya Barreto abre acolhe o festival francês Les Siestes Électroniques.

Com uma história longa, o Les Siestes Électroniques é um dos festivais franceses mais exportados, contando com vinte e uma edições, organizadas em catorze diferentes países – distribuídas por quatro continentes distintos. Em 2018, e num país com uma programação cultural cada vez mais sonora e distinta, o Les Siestes Électroniques Portugal traz artistas de todos os quadrantes da música electrónica e exploratória, encontrando palco perfeito na histórica e vibrante cidade de Coimbra.

Passarão pelo jardim da Casa das Artes Bissaya Barreto nove nomes da eletrónica nacional e internacional em formato matinée e de entrada totalmente livre.

24 de Agosto
The Lions (PT) – DJ set
Pode parecer hiperbólico, mas há uma probabilidade assinalável de que a dupla Afonso Macedo e David Rodrigues ter contribuído directamente para a possibilidade de um festival como o Les Siestes Électroniques ser possível numa capital do rock como Coimbra. O percurso de ambos, a solo ou como The Lions, pauta-se por diluir fronteiras, quer dentro da própria música electrónica, quer dentro de convenções genéricas, mas a tónica acaba por ser o techno, com uma acidez rítmica que os coloca numa posição central no eixo-geográfico Berlim-Detroit — ou seja: Coimbra.

Varg (SE) – Live
Não é por acaso que o selo da Northern Electronics encontra em Varg um emissor que faça jus ao nome da editora: o sueco transpira a cultura nórdica dos anos 90 na sua música, quer seja pela sua sonoridade texturizada com paredes de synths, quer seja pela clara pelo espectro constante do black metal, a pairar em melodias épicas e progressões eufóricas como uma assombração nas suas peças. Em formato live, sintetizadores são a lei, e o negrume gélido de Varg gela-nos até aos ossos para rapidamente quebrar temperaturas em cadências de dança contagiantes.

M.E.S.H. (US) – DJ set
M.E.S.H. está constante a produzir uma visão clara do que é o devir da música electrónica moderna, onde o ritmo se afirma como o elemento mais preponderante. Despindo as suas peças das estruturas e padrões imediatos da cultura ocidental, o norte-americano cria tecidos intrincados de ritmos quebrados e contra-respostas de um difícil inteligir, mas cuja reacção no corpo se sente de forma imediata. A sua música é uma descrição futurista e detalhada do que pode acontecer ao preterir harmonias e melodias a construções de percussão e de soluções texturais: visceral, sem deixar de existir num plano paralelo do multiverso sonoro.

25 de Agosto
Kate NV (RU) – Live
A terra roda sobre si própria diariamente, mas invariavelmente, nos últimos tempos, satélites e atenções focam-se no trabalho da russa Kate NV, cujo cruzamento constante de elementos e influências distintas cria um mosaico colorido, de peças de composição caprichosa, detalhada com progressões rítmicas extravagantes, quase trôpegas, e harmonias inesperadas. A sua música soa estruturalmente alienígena, quase como se fosse uma casa construída do tecto para a fundação, mas de solidez inabalável. Ao contrário das reacções que detectamos em corpos.

Ghost Hunt (PT) – Live
Os Ghost Hunt jogam em casa, estando incapacitados pela sua música de por lá permanecer. A cadência kraut deles pisca o olho ao rock, e serve de gesto de despedida antes da descolagem para os espaços siderais da electrónica, onda a dupla de Coimbra explorar as áreas cinzentas entre as constelações digitais e as orgânicas. Ao vivo, a viagem não é feita a dois, a tripulação não se fica pelos Ghost Hunt e o embarque acontece nos primeiros acordes.

Zaltan (FR) – DJ set
Não raramente escondido por detrás do selo da sua Antinote, editora francesa que tem oferecido alguns dos doces mais pecaminosos dos caminhos electrónicos, Zaltan é um explorador dos caminhos sinuosos das tendências mais pop da música de franja e um insulinodependente sonoro a espalhar o horror das sacaroses pelos corações mais atentos. No seu formato DJ set cabe um mundo de influências difíceis de balizar, mas que espelham muito bem o seu trabalho enquanto editor: delicadeza, melodias cheias de ganchos. Uma espécie de refresco de verão para se ouvir.

26 de Agosto

João Pais Filipe (PT) – Live

Depois de um largo período de incursões no techno e no industrial, o percurso do portuense João Pais Filipe cruzou-se com o do colectivo HHY & The Macumbas, um corpo estranho e disforme na cena musical do planeta terra, e deu-se uma transformação que leva o percussionista de versátil a inconfundível. A sua abordagem, que apelida de “etno techno”, é fruto de uma exploração de timbres e cadências não ocidentais, assim como da sua obra de artesão enquanto “gong & cymbal maker”. Não se vive só ritmos num concerto de João Pais Filipe, mas de combinações de timbres e ressonâncias que se combinam em harmonias capazes de simular rituais obscuros.

Giant Swan (UK) – Live
Giant Swan são uma metáfora perfeita para descrever o acto de andar no limite — as suas actuações existem numa tensão entre o ambiente e o techno, entre a estrutura e as linguagens de improvisação. Cada actuação, única, vive de momentos e não de peças estruturadas, levando a audiência a mapear o espaço amplo que ocupam com duas guitarras, loop stations e pedais, um formato que, em si, problematiza algumas das concepções mais rígidas do que pode, ou deve, ser a música electrónica. Não fronteiras que contenham a dupla de Bristol e delitem as suas acções.

DJ Nigga Fox (PT) – DJ set
Parte do movimento que tem tomado as pistas de dança e embrulhado as cabeças de críticos pelo mundo fora, Nigga Fox é um dos semblantes mais mediáticos da editora Príncipe Discos, que alterou a paisagem das raves lisboetas e cunhou o som dos seus produtores com o epíteto “Lisbon sound”, que caracteriza a chega das cadências rítmicas do tarraxo, do kuduro e do kizomba ao panorama da electrónica ocidental. No caso de Nigga Fox, a agressividade do techno encontra-se com o ritmo quebrado do kuduro, com expressões melódicas dissonantes e hipnóticas. O desafio é ficar parado.